
SOLENIDADES EM HONRA DO SR. SANTO CRISTO DOS TERCEIROS | 2026
A Ribeira Grande voltou a cumprir uma das mais antigas tradições religiosas açorianas com a realização da Procissão dos Terceiros, uma iniciativa promovida pela nossa Misericórdia, que assim renova um legado iniciado há séculos pela Ordem Terceira Franciscana.
Desde os primórdios do povoamento dos Açores, os frades mendicantes procuraram evangelizar as populações através de procissões penitenciais, que marcaram profundamente a religiosidade popular e o calendário litúrgico das ilhas. Graças ao empenho e à dedicação da Misericórdia da Ribeira Grande, esta manifestação de fé mantém-se viva até aos dias de hoje, reunindo fiéis de várias comunidades da ouvidoria.
As cerimónias deste ano foram presididas pelo Pe. Carlos Simas, Ouvidor da Ribeira Grande, tendo a missa solene sido animada liturgicamente pelo coral inter-paroquial da ouvidoria, dirigido por Gilberto Canejo, e no órgão de tubos esteve o músico José António Garcia, que deram particular dignidade ao momento litúrgico.
Na sua homilia, o Pe. Carlos Simas destacou o significado espiritual da imagem do Senhor da Coluna, lembrando que “embora a imagem nos fale silenciosamente do mistério da dor, da entrega e do amor sem medida, a Igreja convida-nos nesta Quaresma a iniciar um caminho de conversão, de combate espiritual e de renovação interior.”
O Ouvidor sublinhou ainda que a devoção ao Senhor da Coluna constitui “uma verdadeira escola de paciência, de humildade e de amor, que, unido ao de Cristo, pode tornar-se em fonte de redenção e de esperança. Num mundo que foge da dor e rejeita o sacrifício, Cristo lembra-nos que o amor verdadeiro é sempre exigente, mas profundamente fecundo.”
Este ano, as ruas da Ribeira Grande vestiram-se de gente de variadas idades e de fé, no primeiro domingo da Quaresma. A procissão, que outrora percorria a cidade na Quarta-Feira de Cinzas, renasceu com novo fulgor, como se o tempo lhe tivesse acrescentado memória e esperança, tornando-se claro que este culto permanece vivo no coração dos católicos, ardendo com a chama da tradição.
Misturaram-se os encapuzados com os escoteiros, os ranchos de romeiros micaelenses, bombeiros e inúmeros trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande, todos unidos como um só corpo, no dia em que a nossa instituição celebrou os seus 433 anos de existência.
Fundada em 1593 por Filipe I de Portugal, com as mesmas prerrogativas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a nossa Misericórdia ergue-se, há mais de quatro séculos, como casa de amparo e porto seguro para os que sofrem.
Cada passo da procissão parecia ecoar a história de gerações que fizeram da fé serviço e da compaixão caminho. Como recordou o Pe. Carlos Simas, “celebrar estes 433 anos é agradecer a Deus por tantas mãos que se estenderam aos frágeis, por tantos corações que souberam acolher quem sofre, repartir o pão com quem tem fome, velar os doentes e defender a dignidade dos mais vulneráveis.”
No final, ficou o apelo sereno: que esta celebração não seja apenas memória, mas semente. Que renove a fé, purifique os corações e fortaleça o compromisso de continuar a escrever, nas ruas da cidade e na vida de cada um, a mesma história de misericórdia que atravessa os séculos.
Com renovado fervor e profunda participação popular, a Procissão dos Terceiros reafirmou-se assim como um dos momentos mais significativos da vivência quaresmal na Ribeira Grande, perpetuando a memória e a fé que atravessam gerações, graças ao empenho inaudito do Museu Vivo do Franciscanismo, que contribuiu para tornar grandiosa esta manifestação religiosa.
A Mesa Administrativa desta Misericórdia aguarda que esta procissão seja definitivamente inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, como elemento identitário açoriano, pelo que espera que se conclua definitivamente o processo de candidatura em curso.